Colérico
- Jé Calado
- 5 de mar.
- 2 min de leitura

Eu inventei de ler um livro sobre temperamentos. E foi amor à primeira vista.
Eu andava pela casa classificando as pessoas mentalmente. Fulano é fleumático. Minha amiga é sanguínea. Aquela ali é melancólica. Eu estava me sentindo praticamente uma cartógrafa da alma humana.
E ele.
Na época eu namorava o que hoje eu chamo, sem carinho nenhum, de macho tóxico. Mas, naquele momento, eu ainda estava na fase de tentar entender. Porque, quando você está num relacionamento assim, você não chama de tóxico. Você chama de “complexo”, “intenso”, “difícil”, “profundo”. Você sempre escolhe a palavra mais elegante possível para não encarar a verdade.
Ele era estressado. Explodia por qualquer coisa. Precisava ter razão. Tinha uma habilidade impressionante de transformar um comentário neutro em ofensa pessoal.
E o livro dizia que o colérico é intenso, dominante e impulsivo.
Pronto. Eu tinha encontrado a explicação.Não era um problema. Era temperamento.
Eu, empolgadíssima, fui compartilhar minha descoberta.
“Amor, acho que já sei qual é o seu temperamento. Você é colérico.”
Pra quê…
“Você está me rotulando?”
“Que absurdo.”
“Eu não sou colérico.”
“Como você pode falar uma coisa dessas comigo?”
Eu tentei explicar. Falei das qualidades do colérico. Da liderança. Da força. Falei que meu pai também era colérico.
Grave erro.
Vieram áudios gritando. Choro. Drama.
“Como você pode me comparar ao seu pai?!”
Como se meu pai fosse o próprio Satanás. Sendo que, na verdade, quem estava com um leve cheirinho de enxofre ali era ele.
Três horas de discussão no WhatsApp.
Três horas.
Por causa de um livro.
Quanto mais ele tentava provar que não era colérico, mais exaltado ficava.
Sempre houve algo além da intensidade ali. Ele tinha aquela habilidade incrível de inverter a situação até você começar a se perguntar se realmente tinha feito algo errado por ter… lido.
A briga foi tão desgastante que eu parei de ler o livro.
Simples assim.
Toda vez que eu pegava o livro, lembrava da discussão. O assunto que tinha me encantado passou a me dar raiva. Eu demorei cinco anos para conseguir abrir aquelas páginas de novo.
Cinco anos.
Olha o poder de alguém que não sabe lidar com a própria insegurança.
Porque o tóxico tem essa capacidade impressionante de cortar a sua alegria. Você está animada com um assunto novo, com uma descoberta, com algo que te fez bem, e ele transforma aquilo em ameaça. É quase um superpoder: detectar sua empolgação e neutralizar.
Um belo balde de água fria.
E sabe qual é a grande ironia dessa história?
Eu sou colérica.
Então imagina como era a minha reação e o desgaste que tudo aquilo me causava.
Eu sou intensa. Impaciente. Direta. Tenho zero paciência para drama prolongado. Eu não aguentava trinta segundos daquela vitimização performática.
Ele queria discutir por três horas. Eu queria resolver em três frases.
Ele queria provar que era único. Eu só queria voltar para o meu livro.
Eu não tinha energia para alguém que transformava tudo em conflito. E ele claramente não sabia lidar com alguém que não se dobrava à narrativa dele.
Talvez ele não fosse colérico mesmo.
Era só escroto.
Pessoas assim fazem você parar de ler o que ama, porque aquilo não convém a elas.
Ainda bem que eu voltei para o livro.
E não para ele.







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